Uma crise ambiental silenciosa se arrasta há anos no município de Altamira, no sudoeste do Pará. Tubulações com vazamentos contínuos despejam esgoto bruto em vias públicas e em área de mata nativa, contaminando trechos do igarapé Altamira, afluente direto do rio Xingu. O problema, denunciado por moradores, só agora voltou ao radar do poder público municipal, que prometeu adotar medidas corretivas.
No bairro Vista Alegre, a situação é considerada crítica. Dejetos escorrem de forma ininterrupta pela rua e avançam sobre uma faixa de preservação ambiental por onde corre um igarapé local. A cena, além de representar risco sanitário para quem vive nas proximidades, configura infração à legislação ambiental brasileira, que proíbe o lançamento de efluentes sem tratamento em corpos hídricos e áreas protegidas.
O que torna o caso ainda mais grave é o contexto histórico da região. O bairro Vista Alegre é um dos que receberam famílias removidas de suas residências originais durante a construção da Usina Hidrelétrica de Belo Monte, um dos projetos de infraestrutura mais polêmicos da história recente da Amazônia. Reassentadas com a promessa de melhores condições de vida, essas famílias convivem agora com infraestrutura sanitária precária e degradação ambiental nas proximidades de suas casas.
Antônio José, aposentado de 69 anos e morador do bairro, é uma das vozes que há tempos cobra solução definitiva para o problema. Segundo ele, os vazamentos não são episódicos — ocorrem com frequência e nunca receberam resposta efetiva das autoridades. A situação illustra um padrão recorrente em municípios da região Norte: investimentos em grandes obras de energia, mas déficit crônico em saneamento básico para populações locais.
A contaminação do igarapé Altamira representa uma ameaça direta à biodiversidade local e à qualidade da água em uma das bacias hidrográficas mais importantes do planeta. O rio Xingu, no qual o igarapé deságua, atravessa territórios indígenas e é habitat de espécies endêmicas. Especialistas alertam que a poluição por esgoto doméstico, mesmo em pontos aparentemente isolados, pode ter efeitos em cadeia sobre ecossistemas inteiros.
A prefeitura de Altamira ainda não detalhou quais medidas serão adotadas nem apresentou prazo para a resolução do problema. Moradores e organizações ambientais da região aguardam não apenas reparos emergenciais nas tubulações, mas um plano estruturado de saneamento que evite a recorrência dos vazamentos e garanta a recuperação da área de preservação afetada.
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