Exposição sobre Exu reacende debate sobre religiões de matriz africana no Brasil
Mostra em São Paulo celebra orixá central nas tradições afro-brasileiras. Tema ressoa forte no Norte, onde umbanda e candomblé têm raízes profundas.

Uma exposição aberta ao público em São Paulo está provocando reflexões que vão muito além das fronteiras paulistanas. Intitulada Padê – sentinela à porta da memória, a mostra coloca em evidência Exu, um dos orixás mais presentes — e mais mal interpretados — nas religiões de matriz africana praticadas em todo o Brasil, incluindo os estados do Norte, onde terreiros de umbanda, candomblé e quimbanda fazem parte do tecido cultural e espiritual de comunidades há gerações.
No Pará e em outros estados amazônicos, a presença das religiões afro-brasileiras é histórica e geograficamente expressiva. Belém, por exemplo, abriga centenas de terreiros registrados, muitos deles em comunidades ribeirinhas e periféricas, onde Exu é reverenciado como guardião das encruzilhadas — espaços simbólicos de passagem e transformação, tanto no plano espiritual quanto no cotidiano das pessoas. A exposição, ao resgatar esse papel central do orixá, dialoga diretamente com essa realidade vivida no Norte do país.
O título da mostra faz referência ao padê, ritual de oferenda realizado antes de qualquer cerimônia nos terreiros, destinado justamente a Exu. Sem esse reconhecimento inicial, nenhum trabalho espiritual tem início — o que revela a importância estrutural desse orixá dentro das tradições. Pesquisadores paraenses apontam que essa lógica de respeito e protocolo espiritual está presente de forma viva nas comunidades quilombolas e terreiros do interior do Pará, muitas vezes invisibilizadas pelo preconceito religioso.
A intolerância religiosa contra praticantes de religiões afro-brasileiras segue sendo um problema grave no Norte do Brasil. Relatórios de organizações de direitos humanos registram casos recorrentes de ataques a terreiros, discriminação em escolas e locais de trabalho, e discursos de ódio nas redes sociais direcionados a umbandistas e candomblecistas da região. Nesse contexto, iniciativas culturais como a exposição paulistana ganham relevância também como instrumento de combate ao racismo religioso.
Comunidades do Pará que preservam tradições de matriz africana veem com expectativa a possibilidade de que mostras semelhantes cheguem à região Norte. Lideranças de terreiros em Belém defendem que museus e espaços culturais locais — como o Museu do Estado do Pará e o Museu Paraense Emílio Goeldi — possam acolher exposições que valorizem essa herança, tornando-a acessível à população local sem que seja necessário deslocar-se até o Sudeste para ter contato com esse acervo.
A exposição Padê permanece aberta até 26 de julho no Museu Afro Brasil Emanoel Araujo, no Parque Ibirapuera, em São Paulo. Para pesquisadores, educadores e lideranças religiosas do Norte, o debate levantado pela mostra serve de inspiração para que políticas públicas de valorização da cultura afro-brasileira avancem também na Amazônia, onde essa herança é parte indissociável da identidade regional.
Redação
Equipe de jornalismo do O Norte Diário.