Festival celebra ancestralidade indígena e reacende debate sobre apagamento cultural no Brasil
Evento gratuito no Rio de Janeiro reúne artistas e escritores originários. Para o Norte do Brasil, a iniciativa ecoa como um chamado urgente.

Um festival dedicado aos saberes e à literatura dos povos originários toma conta de um dos espaços históricos do Rio de Janeiro neste sábado. O Motirõ – Palavras da Mata promove oficinas, intervenções artísticas e rodas de conversa que colocam em evidência a produção cultural indígena contemporânea, ainda invisibilizada em grande parte dos circuitos culturais brasileiros.
A iniciativa ganha significado especial quando vista a partir da Amazônia. O Pará, estado que abriga dezenas de etnias e uma das maiores diversidades linguísticas do planeta, convive diariamente com o paradoxo de ter uma das culturas originárias mais ricas do mundo e, ao mesmo tempo, ver essa produção raramente ocupar museus, livrarias e palcos de prestígio. O festival no Rio funciona como um espelho incômodo dessa realidade.
A curadoria do evento é assinada por Emiliana Marajoara, escritora e arte-educadora cujo próprio nome carrega a referência à cultura marajoara — civilização pré-colombiana que floresceu exatamente na região do arquipélago do Marajó, no Pará. Sua presença à frente do festival reforça os laços simbólicos entre a produção cultural que acontece no Sudeste e as raízes que nascem no coração da Amazônia.
Entre as atividades programadas estão oficinas de confecção de maracás, instrumento sagrado presente em rituais de diversas etnias da Amazônia, além de encontros literários com escritores indígenas que vivem fora de suas terras de origem. A programação começa às 10h e reúne músicos, artesãos, professores e artistas plásticos, compondo um retrato plural da resistência cultural dos povos originários nos grandes centros urbanos.
Para especialistas em cultura e educação no Norte do Brasil, eventos como este apontam para uma demanda que ainda não foi devidamente atendida pelas políticas públicas regionais: a criação de espaços permanentes de valorização da produção indígena contemporânea em cidades como Belém, Santarém e Marabá. Com a COP 30 prevista para Belém em 2025, a vitrine internacional pode ser uma oportunidade histórica para que a Amazônia apresente ao mundo não apenas sua floresta, mas também suas vozes.
Ocupar espaços históricos com narrativas indígenas é, antes de tudo, um ato político. É o reconhecimento de que a história do Brasil não começou com a chegada dos colonizadores — e que os povos originários não são apenas passado, mas presente vivo, produtivo e urgente. Uma lição que a região Norte conhece bem, mas que ainda precisa ser ouvida com mais atenção pelo restante do país.
Redação
Equipe de jornalismo do O Norte Diário.